segunda-feira, 9 de junho de 2014

Como lidei com a obesidade - Infância

Sempre fui gorda, tipo, a vida inteira. Passei a infância ouvindo a musiquinha "gorda, baleia, dois sacos de areia..." E, sim, isso me incomodava. Me sentia diferente, preterida, diminuída, mas não fazia idéia do porquê. Na minha época não existia essa coisa de bullying e eu simplesmente sofria calada, sofria mesmo! 
Criada em uma familia religiosa, com uns 6, 7 anos eu comecei a orar, pedindo para Deus para me fazer acordar magra. Eu sabia o que era ser gorda e o que era ser magra e, na minha cabeça, ser gorda era ruim e ser magra era bom. Mas não fazia ideia do que que me fazia gorda e, por isso, todos dias durante muito tempo, orei pedindo que Deus me fizesse acordar magra. Eu não suportava a sensação de solidão que eu sentia toda vez que as crianças do meu prédio cantavam aquela musiquinha insuportável. Minha mãe sempre me levava no endocrinologista e sempre saiamos de lá com uma dieta que nunca era seguida. 
Não posso culpar meus pais, jamais! Como culpar alguém que conviveu com a miséria de perto, quase passou fome, de alimentar o filho como ele/a sonhava em ser alimentado quando só tinha bijú e pão dormido para comer? Lá em casa, comer era uma benção, ter muita comida em casa sempre era sinal de felicidade e foi com essa idéia que eu cresci. Ser feliz era comer, e comer muito. 
E, assim, cresci sem saber o que me fazia gorda. Sofri na infância, sofri muito. nunca vou esquecer da vez que uma enfermeira me pesou e saiu falando para TODOS que apareciam pela frente que eu, com 8 anos, pesava o mesmo que ela (61kg), que aquilo era um absurdo, era péssimo e que eu estava muito gorda. Hoje, quando penso na minha meta - 60kg - sempre me lembro da tal enfermeira e do quão humilhada eu me senti naquele dia. Foi cruel.
Acabei acostumando com a palavra "gorda". sempre ouvi: "ela é gorda, mas é linda", "ela tem o rosto lindo, apesar de ser gorda", "ela é muito bonita, só está um pouco gordinha demais" e por aí vai (se você é gordo/a, certamente sabe do que estou falando).
Aos 12, 13 anos, eu já estava acostumando com a idéia de ser gorda... Depois de tanto orar para Deus me emagrecer (porque eu realmente não fazia idéia de como eu poderia ser magra), comecei aceitar a idéia de que eu era diferente e ponto final. Aceitei que eu era linda e que o fato de ser gorda era um defeito que eu deveria aprender a conviver. Assim como uma pessoa que não tem um dos membros ou que não enxerga, eu deveria adaptar minha vida à obesidade. (continua)

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