terça-feira, 10 de junho de 2014

Como lidei com a obesidade - Adolescência

Entrei na puberdade e comecei a me ver com outros olhos, reparar coisas que eu achava bonitas em mim e usar essas coisas à meu favor. Aos 14 anos dei meu primeiro beijo e foi no menino mais lindo da igreja, que eu frequentava com minha família. Não quis namorar e comecei a esnobar o pobrezinho do menino.
Passou. Entrei no segundo grau. E, para esconder a obesidade, que era meu "defeito", comecei a criar moda, ser o mais estilosa que podia, em um ano, me tornei muito popular. Fiquei com o menino pelo qual me apaixonei, recebia bilhetinhos e declarações. De fato, me relacionar com meninos nunca foi um problema para mim, eu realmente era atraente para eles e isso se tornou o álibi para justificar minha condição. Eu tinha o que queria, era feliz e pronto. Só que não. 
Como toda adolescente, eu tinha uma amiga... Uma super amiga que um dia quis me apresentar a um menino... Ao falar de mim para o menino, ela disse que eu era linda, inteligente, mas tinha um problema (pasmem), eu era gorda. Sim, ser gorda era meu maior defeito, pelo menos era assim que todos enxergavam e aquilo começou a me incomodar seriamente. Depois dos 15 anos, comecei a me questionar: Porque ser gorda é tão ruim? Eu me olhava no espelho e, realmente, me achava linda. Eu era (e sou) linda e não conseguia entender aqueles olhares estranhos, de piedade, de quem dizia: "ela tem o rosto lindo, mas...", e isso me consumia.
Entrei na onda das dietas, como toda adolescente (ou quase todas), eu queria ser aceita, queria ser "normal". E os anos foram passando... Eu fui crescendo e cada vez mais, odiando quem odiava gordos. Era um absurdo! E o pior era que, na minha cabeça, não havia nada de errado comigo (e não havia mesmo!). E cada vez que eu trocava de namorado, enquanto minhas amigas magras estavam sofrendo de solidão, mais eu questionava o por quê do "Ela tem um rosto lindo, mas...". 
Cada dieta fracassada eram uns 5kg a mais de "recompensa" que eu comia para me livrar do mau estar do fracasso. E assim eu me tornei uma food addict, completamente viciada em comida. Hoje em dia, quando olho para trás (principalmente agora, escrevendo pra você) eu percebo que meu problema nunca foi autoaceitação (como muita gente gorda que eu conheço), foi a pressão social que me fez entrar nessa noia de emagrecer e me transformou em um monstrinho devorador de chocolates. 
A sociedade é muito cruel com as pessoas gordas e acabam nos transformando em pessoas tristes e insatisfeitas. Quando ouço um ex-gordo dizer que nenhum gordo é feliz sendo gordo, me dá vontade de descer do meu salto e puxar os cabelos dessa pessoa até ela ir parar no chão. Isso NÃO é verdade! Não conheço ninguém que engordou porque quis, mas conheço muita gente (eu era assim) que é feliz com seu corpo do jeitinho que está. Se aceita e se gosta e isso sim é o importante. Mas, claro, existem outros fatores que contam muito na nossa decisão de estilo de vida: eu queria ter saúde.
Com 23 anos, entrei faculdade e fui morar em uma república de estudantes. Neste momento a preocupação com a saúde começou a surgir. Descobri que outras pessoas (eu morava com mais 5 meninas) tinham uma relação diferente com a comida. Comecei a observar como minha dispensa era tão mais cheia do que as outras e como minhas porções de comida era tão maiores, aquilo não era normal. Me matriculei em uma academia e após alguns meses de treino duro (2 horas por dia/5 vezes na semana) eu cheguei aos 89 kg. Não mudei nada na alimentação, só malhava bastante e os resultados chegaram... De 95kg para 89 (o mais magra que consegui ficar).
Eu me sentia maravilhosa, bem disposta, era realmente muito legal fazer exercícios. Foram 6 meses de academia e parei. Falta de grana, falta de tempo... Meu foco se voltou para outras coisas e, aos poucos, meu peso foi voltando para a casa dos 90 e muitos... Nesta época, minha mãe já era diabética e meu pai hipertenso e essas duas palavrinhas começaram assombrar minha vida. 
Em 2009 tudo aconteceu, o estresse do processo seletivo de intercâmbio me fez engordar até os 103kg (e eu só tenho 1,53 de altura), entrei na obesidade mórbida e não tinha pique para nada. Não tinha tempo, me alimentava muito mal e não fazia ideia do que estava fazendo com meu corpo. Eu estava me matando. (continua)

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